Morte fez casamento durar só 1 ano, mas para Gui, amor valeu a eternidade

Gabi passou pela saga de tratar por meses uma doença autoimune, quando na verdade, o diagnóstico era de aplasia medular. Viu o transplante de medula óssea dar certo e comemorou um final feliz, que na verdade nunca existiu. Viveu duas vidas em 23 anos, plantou sementes e deixou o amor para regá-las depois que ela tivesse partido.

Noiva de um “emocionante sim”, Gabriela Morais Brasil se despediu no último dia 15, depois de um ano e meio de luta contra o próprio corpo, que insistia em se destruir por dentro, mesmo quando por fora o sorriso demonstrava tamanha vontade de viver.

Imagem que não sai da cabeça de Guilherme, os fogos do casamento que vão virar tatuagem. (Foto: Marcus Moriyama)

O que ficou de quem partiu ouviu e chorou com Guilherme, o noivo que não contou a sua versão da história na primeira reportagem sobre essas história de amor, porque não tinha assunto que Gabriela gostasse mais do que seu casamento. Por meses, o quarto do hospital em São Paulo, onde ela ficou internada boa parte do tempo, foi tomado pelo álbum do grande dia do casal e o vídeo também não parava de ser exibido. Repetidas vezes.

Gabi, antes de perder o cabelo com a quimioterapia, cortou as mechas e doou. (Foto: Arquivo Pessoal)
Gabi, antes de perder o cabelo com a quimioterapia, cortou as mechas e doou. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em junho deste ano, Gabriela e Guilherme fizeram sete anos juntos, contando namoro, noivado e casamento. “Foi um acaso muito feliz, uma manobra divina”, lembra Guilherme Mungo Brasil, de 26 anos, sobre quando se conheceram. Ele com 19 anos e ela, com 16, numa festa em que Gabi foi de “bicão”.

Juntos, cresceram e compartilharam as pequenas grandes conquistas um do outro. O primeiro carro de Guilherme, a aprovação nos concursos ainda à época do estágio, a entrada dela na faculdade. Desde setembro de 2013 eles planejavam o casamento. Eles, casal, porque ela, por si só, já tinha uma pasta salva no computador com tudo aquilo que sonhava antes mesmo de conhecer o noivo.

Em 2014, Guilherme tomou posse num concurso público federal em Ponta Porã. O ano seguinte já traria o mês de outubro, quando eles trocariam os votos e as alianças. Ainda nos preparativos, Gabriela recebeu o primeiro diagnóstico, depois de perceber manchas roxas pelo corpo: Púrpura Trombocitopenica Idiopática, uma doença autoimune, em que o corpo mata as plaquetas. “Foi um baque muito grande, a gente foi tratar e começou a saga em junho de 2015”, recorda Guilherme.

O protocolo da doença tinha medicações a base de corticoide, que fizeram Gabriela ganhar 20 quilos de inchaço e a retirada do baço, depois de uma segunda opinião com um especialista de São Paulo. “Nessa saída da cirurgia, muita coisa não batia, mas continuou-se com a aposta da Púrpura”.

Apesar de muitas sugestões, Gabriela não aceitou cancelar ou sequer adiar o casamento. Muito menos Guilherme. O primeiro grande sonho dela já tinha sido interrompido, quando o tratamento a fez trancar a faculdade de Odontologia.

Para fazer companhia, Guilherme também raspou a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)
Para fazer companhia, Guilherme também raspou a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois da cirurgia, a expectativa era de tudo dar certo, mas as medicações tomadas anteriormente teriam supostamente prejudicado a medula de Gabriela e o casal teve de encarar outro medicamento e de alto custo. Mesmo assim, o casamento aconteceu exatamente como Gabriela sonhava. “A gente fez tudo o que queria, conseguiu celebrar, comemorar o amor que tinha um pelo outro, junto de pessoas queridas”, lembra Guilherme.

Pelo quadro clínico, não teve viagem de lua de mel e o casal se mudou para Dourados, onde morariam. Apesar dos médicos falarem para ela seguir com o tratamento, os remédios não faziam o efeito esperado e em consulta com uma especialista da cidade de Dourados, já no começo deste ano, a suspeita era de que a doença autoimune tinha sido diagnosticada erroneamente. “Concomitante a isso, sinais diferentes começaram a aparecer, além das plaquetas baixas, uma anemia com origem na medula”, conta o marido.

No final de maio, um exame apontou aplasia de medula grave, já com a parte imunológica cheia de alterações. De volta a São Paulo, a viagem que duraria três dias para consultas terminou na primeira de uma série de internações para tratar a medula. “Era uma doença benigna, não era leucemia. Apesar do tratamento, em alguns casos, ser parecido, é menos grave”, explica Guilherme. Pelo Facebook e WhatsApp, o casal adentrou no “mundo” da aplasia, uma doença rara, descobrindo grupos de pessoas que passavam pela mesma situação.

O tratamento era por medicação ou transplante. Os médicos tentaram a primeira possibilidade até esgotá-la, para então – com o pai de Gabriela como doador – fazerem o transplante. Além da aplasia, foi diagnosticada também outra doença, HPN. “Depois que entendemos mais a situação, percebemos que os médicos da época teriam condições de terem visto nos exames pré-cirúrgicos que não era Púrpura”, detalha Guilherme. “Mas não os culpamos, pois sempre há um médico do dia seguinte”, completa o marido.

Das fotos que mais traduzem quem foi Gabi. (Foto: Arquivo Pessoal)
Das fotos que mais traduzem quem foi Gabi. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na programação dos médicos e do casal, em três meses o tratamento atenderia à doença, devolvendo para Gabi sua saúde. Nenhum dos dois nunca pensou na despedida. Só que em julho, complicações apareceram e as internações ficaram cada vez mais frequentes, exigindo que o casal se mudasse, de vez, para São Paulo. “Eu sempre fiz questão de dar a mão pra ela, sempre. A gente levava numa boa, quando tinha que fazer exames em outros hospitais, andar na ambulância era passeio. Encaramos de forma leve, era uma fase difícil, mas logo logo a gente ia voltar para o nosso mundo”, narra o marido.

Do final de julho a setembro, foram 60 dias de internação direta e o início de uma aflição. “Ela sentiu que o tratamento não estava dando certo”, notou Guilherme. Em setembro foi feito o transplante, que correu bem e em cerca de 20 dias a medula pegou.

O procedimento exigia sessões de quimio e radioterapia, que trouxeram a Gabi enjoos, mas não lhe tiraram o sorriso em momento nenhum. Consequentemente, também houve a perda de cabelo e com ela, uma das tantas sementes que Gabi espalhou, encontrou solo fértil.

Sempre vaidosa, as fotos que estampam as homenagens hoje prestadas à Gabriela no Facebook, são de uma jovem sorridente, de rímel, batom e turbante. Os registros correram o hospital e trouxeram conforto e incentivo a quem passava pela mesma situação. Que Guilherme soube, uma criança e uma senhora passaram a aderir ao turbante e ao batom, contagiados por Gabi.

A alta pós transplante veio no final de outubro, mas durou poucos dias. Sinais de uma suposta sinusite levaram Gabi e Guilherme de volta para o hospital. “No dia que me falaram que iam ter que internar de novo, ali eu fiquei sem chão, frustrado. Mas se tinha alguém para estar frustrado ali, era ela, que me chegou a pedir desculpas por estar internando”.

Casal no hospital, em uma das séries de internações. (Foto: Arquivo Pessoal)

As lembranças voltam à tona com lágrimas do marido. Gabriela era firme e forte, enquanto ele se permitiu desabar. Dois dias depois de deixar o hospital, Gabi teve de ser internada de novo, desta vez com um quadro ainda mais grave: com a função renal prejudicada.

“E ainda viram que ela estava em hemólise, o corpo dela estava destruindo as hemácias que a medula produzia”, traduz. E dali para frente, os dias passaram cada vez mais rápidos. “Foram poucos dias. Eu não acreditava. Ela começou a ter dificuldade respiratória e foi para a UTI, um dos dias mais difíceis, porque ela me pediu desculpas de novo. Foi ali que ela me olhou, com uma carinha morrendo de medo e falou pela primeira e única vez: amor, eu tô com medo”.

Houve uma volta para o quarto e um retorno final para a UTI. Novos exames detectaram a presença multiplicada por milhões de um vírus simples, Epstein-Barr, da mesma família da herpes. “Mas quando esse vírus ativou, o organismo dela não teve como se defender”. Crentes de que Gabriela ia melhorar, os familiares viam que além da medicação não responder, o quadro só se agravava e Gabi chegou a sentir dores por todo o corpo.

“Eu ficava acordado, segurando a mão dela o tempo todo”. Na segunda noite de UTI, Gabriela já foi sedada, devido à forte agitação. Guilherme resistiu o quanto pode e na quarta noite, na última segunda-feira, a mulher teve de ser entubada. “Era para ela ficar segura, o cérebro podia parar de coordenar a respiração e ela podia ter uma parada. Foi para não acontecer nada assim”, explica. Os médicos deram a ele e à família a esperança de tirar os tubos em dois ou três dias.

“Antes de entubar, ela não respondia mais ninguém, não reagia. O médico falou com ela, ela respondeu ‘oi doutor’ e quando ela olhou para mim, conseguiu interagir um pouco. Eu olhei pra ela e disse: ‘amor, eu te amo’ e ela fez que sim com a cabeça. ‘Tô aqui com você’, porque prometi não sair do lado dela”. ‘Não para de remar’, narra.

Ao lado dos pais, quando a medula pegou. (Foto: Arquivo Pessoal)Ao lado dos pais, quando a medula “pegou”. (Foto: Arquivo Pessoal)

Guilherme não deixou o médico dizer que iam entubá-la. Falaram apenas que ela dormiria para descansar. Por ordem dos médicos, o marido também foi dormir, em casa. Terça de manhã, dia 15, a primeira coisa que ele fez foi checar pelo celular os resultados dos exames da esposa. Estavam alteradíssimos em níveis “extraordinários”.

“E a nossa expectativa era sempre de: está grave, mas a gente tem isso, isso, isso para reverter e vai passar”. Às 8h30 da manhã, enquanto Gabriela, ainda sedada em nível intenso em razão da entubação, era avaliada pela equipe intensivista, Guilherme chegou, a beijou, disse que estava ali e ouviu dos médicos que o caso era muito grave. “A gente tem esperança do que agora? Quando eu falei isso, ela entrou em arritmia. Foi cena de filme, me tiraram do quarto, entraram com desfibrilador…”

O relógio parou de contar minutos a cada 60 segundos e passou a se arrastar. Guilherme não sabe quanto tempo levou o procedimento e nem a caminhada do médico até ele para dar a notícia. “Eu pensava: ele vai dizer que deu uns choques e ela estabilizou, vai aguentar e a gente vai reverter. Mas não. Ele colocou a mão no meu ombro e falou ‘vamos ali num canto’. Chorei, gritei, vomitei, chutei tudo. Eu não acreditava que isso podia acontecer”.

Guilherme nunca achou que fosse perder Gabi. Mas com o tempo, vai poder perceber as flores que ela deixou pra ele. Um profissional que a atendeu enquanto esteve internada, por exemplo, viu na história do casal o que precisava ver na própria vida.

“Ela mostrava o vídeo do nosso casamento para todo mundo e isso mexeu muito com ele. Ele contou que tinha deixado uma ex em sua cidade e que nós os inspiramos de um jeito, que ele começou a rever muita coisa. E depois que ela se foi, ele resolveu largar tudo em São Paulo e está voltando para ficar com essa mulher”.

Gabi motivou, tocou e inspirou muita gente. “O que ficou dela? Tudo e mais um pouco. Exemplo de inspiração, de fé, força, determinação, garra e sobretudo alegria e felicidade. Ela tinha que viver só 23 anos e foi isso que aconteceu, mas ela gerou muitas sementes e alcançou muita gente com o que ela passou, pelo amor, fé e serenidade”.

Uma das imagens que não sai da cabeça do marido vem lá do casamento. Quando os dois adentravam no salão – pela primeira vez como marido e mulher – e do lago saiam fogos. “A gente está de costas, olhando para os fogos e pra mim, é a gente olhando para o nosso futuro, só com coisa boa”. A fotografia vai virar tatuagem, marcada quando Gabi ainda estava aqui, para janeiro de 2017.

Se Guilherme soubesse, sete anos atrás, tudo o que viveria, teria feito igual? “Dez milhões de vezes. Se eu pudesse recomeçar amanhã, faria tudo de novo, infinitamente”.

Fonte Campo Grande News



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